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Um passado abandonado

Galpões pichados e cheios de lixo, vagões enferrujados e trilhos largados em meio ao mato alto. Esse é o cenário visto por quem passa próximo às antigas estruturas ferroviárias que cruzam Campinas, e que um dia já foram o principal meio para o desenvolvimento econômico da cidade.

Criada no século 19 pela já extinta Companhia Mogiana de Estradas de Ferro para o desenvolvimento cafeeiro do interior paulista, as ferrovias eram o meio mais comum para o deslocamento de passageiros entre as cidades próximas e o mais importante para o transporte de cargas. Entretanto, com o rápido avanço da malha rodoviária no país, os trilhos passaram a ser cada vez menos utilizados, sob o argumento de que a velocidade era menor e as operações eram mais complexas com os trens. Hoje, apenas uma pequena parte do sistema ainda está em funcionamento para o transporte de cargas, sob a responsabilidade de duas empresas de logística.

O barbeiro Emanuel Ribeiro, de 68 anos, trabalha há 45 ao lado da Estação Cultura e lembra da época em que os trens de passageiros chegavam a todo momento: “Na época em que a Fepasa ainda existia isso aqui era sempre cheio. Passava uma média de 35 a 40 trens por dia e a gente tinha amizade com os maquinistas, com o pessoal que trabalhava nos vagões, com o pessoal que abastecia e chegavam aqui pra cortar o cabelo cheirando óleo diesel. Viajar de trem era bem mais barato do que de ônibus, não entendo porque hoje tudo isso sumiu”, conta.

Locais deteriorados e sem manutenção   deixam para trás a história  de um dos mais importantes meios de transporte da região

Felipe Bettarello

Construções e trilhos que pertenciam à Fepasa estão abandonados em diversos trechos da cidade, como o antigo Posto de Controle, na região da Vila Industrial (à esq.) e os trilhos próximos à Rua da Abolição (à dir.)

Com exceção da antiga Estação Ferroviária de Campinas, que foi completamente restaurada e tombada como patrimônio histórico e cultural da cidade em 2001, transformando-se em Estação Cultura, o restante da antiga estrutura da Ferrovia Paulista SA (Fepasa), que incorporou a Mogiana na década de 1970, está completamente abandonada.

Com a extinção da Fepasa em 1998, um impasse sobre de quem é a responsabilidade pela estrutura ferroviária remanescente impede a Prefeitura Municipal de Campinas de tomar ações. O Governo Estadual diz que a responsabilidade é da União, já que, em 1997, a Fepasa foi incorporada à Rede Ferroviária Federal, mas a União, por outro lado, entende que quem deve assumir a responsabilidade pela antiga estrutura é o Estado. De acordo com a Secretaria Municipal de Planejamento e Desenvolvimento Urbano, sem essa definição, o Poder Público Municipal não consegue ter a cessão de que precisa para planejar projetos futuros.

Fotos: Felipe Bettarello

Antigo vagão de passageiros foi incendiado e pichado em trecho próximo à Rodoviária de Campinas

Foto: Felipe Bettarello

Enquanto nada é feito, a população é quem sofre com o descaso. Sem iluminação e com fácil acesso, os antigos galpões que serviam de garagem para as locomotivas se transformaram em ponto de uso de drogas e esconderijo para criminosos. Por estarem próximos ao Terminal Intermunicipal de Ônibus de Campinas, a situação assusta as pessoas que passam pelo local todos os dias, como a assistente social Elza Soares, de 54 anos: “Todo mundo passa por aqui sempre com medo. A gente nunca sabe se vai vir alguém de dentro daqueles barracões para assaltar ou fazer outra coisa. Já cansei de ouvir histórias de pessoas que já foram roubadas aqui. A grade é cheia de buracos, para eles é bem fácil roubar e fugir”, diz.

Em nota, a Guarda Municipal de Campinas, responsável pelo patrulhamento no local, afirma que “constantemente são realizadas ações para inibir a ação de criminosos, como rondas constantes dos agentes, a pé ou com viaturas, e apreensões dos usuários de drogas com o auxílio da Polícia Militar”.

Locomotiva utilizada para a manutenção da linha férrea está abandonada em galpão da região central de Campinas

Farol de sinalização localizado às margens da Rua da Abolição. No trecho, apenas parte da linha férrea ainda está em funcionamento para composições cargueiras.

Poste de energia que pertencia à Fepasa, na Rua Afonso Pena, está em ruinas e a ponto de cair

Trecho próximo ao Viaduto Miguel Vicente Cury, a apenas 400 metros da Estação Cultura. Trilhos soltos e enferrujados e um Posto de Serviço abandonado compõem o cenário, que fica às margens da Av. 20 de Novembro

Cabina Ferroviária da Fepasa. A construção, que hoje está pichada e abandonada, era utilizada como base para os operários que limpavam os trilhos e cuidavam da sinalização.

Composição de passageiros está abandonada próximo à galpão da Estação Cultura. À noite, é utilizada como abrigo para mendigos.

Caminhando pela linha férrea, é possível encontrar diversos vagões abandonados sobre os trilhos cobertos pela vegetação. Se fossem reformados, poderiam se tornar atração turística e preservar a história da cidade.

Caminhando pela linha férrea, é possível encontrar diversos vagões abandonados sobre os trilhos cobertos pela vegetação. Se fossem reformados, poderiam se tornar atração turística e preservar a história da cidade.

Vegetação começa a crescer em meio aos buracos causados pela ferrugem no vagão.

Pedaços de trilhos antigos que não foram retirados pela Fepasa se misturam à vegetação na região do Bonfim.

Pedaços de trilhos antigos que não foram retirados pela Fepasa se misturam à vegetação na região do Bonfim.

Poste da antiga rede telegráfica ainda pode ser visto próximo à Estação Cultura.

Grande parte dos dormentes, estruturas de madeira que sustentam os trilhos no solo, estão empilhados em terreno da Vila Industrial.

Locomotiva utilizada para a manutenção da linha férrea está abandonada em galpão da região central de Campinas

O galpão que era utilizado para estacionar as locomotivas está tomado pelo lixo deixado pelos moradores de rua e pela água da chuva que entra pelo telhado danificado.

O galpão que era utilizado para estacionar as locomotivas está tomado pelo lixo deixado pelos moradores de rua e pela água da chuva que entra pelo telhado danificado.

O livre acesso de pedestres aos trilhos da antiga Fepasa permitem que andarilhos, mendigos e usuários de drogas utilizem o local. Como apenas a Estação Cultura está sob poder do Município, as outras construções não possuem vigilância ou manutenção.

No bairro Bonfim, antiga ponte que era utilizada para atravessar a linha férrea está sem condições de tráfego. Mesmo com risco, pedestres ainda conseguem passar pelo local.

Vagões antigos paredes se tornaram murais de pichadores em galpão de manutenção de locomotivas próximo à Av. Lix da Cunha

Vagões antigos paredes se tornaram murais de pichadores em galpão de manutenção de locomotivas próximo à Av. Lix da Cunha

Além da Prefeitura, o Sindicato dos Trabalhadores em Empresas Ferroviárias da Zona Mogiana também tenta acabar com o abandono da estrutura ferroviária da cidade. Segundo o Diretor de Relações Sociais do Sindicato, Odair Lucas Valente, que trabalhou na Companhia Mogiana como telegrafista, a tentativa é de criar um museu aproveitando as estruturas já existentes, mas que a baixa visibilidade do sistema ferroviário não só pelos governantes, mas pela sociedade em geral dificulta esse processo: “É importantíssimo para a população ter preservada essa parte da história que hoje está perdida e abandonada. As atenções

Odair Valente

É importantíssimo para a população ter preservada essa parte da história que hoje está perdida e abandonada

hoje são voltadas somente para o sistema rodoviário, e isso é para atender interesse da indústria automobilística e das refinarias de combustíveis. Os ferroviários não têm o mesmo poder para negociar com os políticos e conseguir transformar esses prédios destruídos em museus tem sido muito difícil”, conta.

Fotos: Felipe Bettarello

Foto: Felipe Bettarello

Infográfico por Campinas sobre Trilhos. Fonte: Wikipedia.com

População está insatisfeita com a situação dos trens de Campinas, que têm futuro incerto nas mãos do governo municipal

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